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quinta-feira, 26 de julho de 2012

→ 03/11/2011 @3:23

Vale sempre a pena reler Carl Sagan

Para um re­gular do Bi­taites e amante de As­tro­nomia, Carl Sagan dis­pensa apre­sen­ta­ções. É um as­tró­nomo, mas também um «poeta das es­trelas», como lhe chamou Mi­guel Gon­çalves, co­or­de­nador em Por­tugal da or­ga­ni­zação The Pla­ne­tary So­ciety; é ri­go­roso, mas não he­sita em deixar-se levar pela ima­gi­nação – Sagan é uma re­fe­rência que me acom­pa­nhará toda a vida.
O ca­pí­tulo que se segue – «Ha­verá vida in­te­li­gente na Terra?» – foi trans­crito do livro «O Ponto Azul-Claro», ins­pi­rado na ico­no­grá­fica fo­to­grafia da Voyager de um dis­tante pla­neta Terra e pla­neado como uma se­quela do cé­lebre «Cosmos: uma vi­agem pes­soal», um livro ba­seado na série de te­le­visão.
Este livro foi pu­bli­cado em 1994, dois anos antes de Sagan morrer, mas mesmo a pas­sagem dos anos não lhe tira atu­a­li­dade e per­ti­nência: talvez porque ele nunca se pre­o­cupou em es­crever apenas sobre Ci­ência, mas em par­ti­lhar uma visão de fu­turo que tem tanto de ci­en­tí­fica como es­pi­ri­tual.
O ca­pí­tulo aqui trans­crito aborda uma si­tu­ação hi­po­té­tica: se uma nave de ex­tra­ter­res­tres vi­si­tasse o nosso sis­tema solar e in­ves­ti­gasse a Terra, que en­con­tra­riam eles? Como des­co­bri­riam a exis­tência de vida? Como se­riam ca­pazes de de­tetar or­ga­nismos in­te­li­gentes?
Ao in­verter os pa­péis e fazer da Terra o ob­jeto das ob­ser­va­ções, Sagan propõe-nos re­con­si­derar, com acu­ti­lância, ima­gi­nação e sen­tido de humor, o nosso papel no Cosmos e o que an­damos a fazer neste frágil ponto-azul claro.
Segue-se então o texto de Carl Sagan, tra­du­zido por Au­gusto Ma­nuel Mar­ques e Jorge Lan­deck. As fo­to­gra­fias aé­reas são da au­toria de Yann Arthus-Ber­trand.

Ha­verá vida in­te­li­gente na Terra?


Su­ponha que é um ex­plo­rador ex­tra­ter­restre que acaba de chegar ao sis­tema solar após uma longa vi­agem através do es­paço in­te­res­telar.
Exa­mina os pla­netas dessa es­trela banal de longe – uma bela mão-cheia, al­guns cin­zentos, al­guns azuis, al­guns ver­me­lhos e ou­tros ama­relos. Está in­te­res­sado em saber que tipo de mundos são estes, se os seus meios am­bi­entes são es­tá­veis ou va­riá­veis e, es­pe­ci­al­mente, se existe vida e in­te­li­gência. Não possui ne­nhum co­nhe­ci­mento prévio sobre a Terra. Acaba de des­co­brir a exis­tência dela.
Ima­gi­nemos que existe uma ética ga­lác­tica: olhar, sim; mexer, não. Podem so­bre­voar esses mundos, or­bitá-los, mas estão ex­pres­sa­mente proi­bidos de aterrar. Com estas li­mi­ta­ções, con­se­guir-se-ia per­ceber qual o tipo de meio am­bi­ente da Terra e se al­guém lá vi­veria?
À me­dida que nos apro­xi­mamos, a pri­meira im­pressão da Terra no seu con­junto re­vela nu­vens brancas, ca­lotas po­lares brancas, con­ti­nentes cas­ta­nhos e uma subs­tância azu­lada que cobre dois terços da su­per­fície.
Quando medir a tem­pe­ra­tura deste mundo a partir da ra­di­ação in­fra­ver­melha que ele emite, des­cobre que a maior parte das la­ti­tudes está acima do ponto de con­ge­lação da água, en­quanto as ca­lotas po­lares são cons­ti­tuídas por água so­li­di­fi­cada e nu­vens de água só­lida e lí­quida é uma hi­pó­tese ra­zoável.
Também po­deria ser ten­tado a pensar que a subs­tância azu­lada fossem enormes quan­ti­dades – com qui­ló­me­tros de pro­fun­di­dade – de água lí­quida.
A su­gestão é bi­zarra, to­davia, pelo menos no que diz res­peito a este sis­tema solar, porque não existem oce­anos su­per­fi­ciais de água lí­quida em ne­nhum outro pla­neta.
Quando ins­pe­ciona o es­pectro vi­sível e in­fra­ver­melho pró­ximo em busca das as­si­na­turas re­ve­la­doras da com­po­sição quí­mica, des­cobre, com toda a cer­teza, água nas ca­lotas po­lares e su­fi­ci­ente vapor de água no ar para jus­ti­ficar as nu­vens; essa é pre­ci­sa­mente a quan­ti­dade ade­quada que deve existir, de­vido à eva­po­ração, se os oce­anos forem de facto com­postos por água lí­quida. A hi­pó­tese bi­zarra con­firma-se.
Os es­pec­tró­me­tros re­velam, além disso, que o ar deste mundo contém um quinto de oxi­génio, 02. Ne­nhum outro pla­neta do sis­tema solar possui uma per­cen­tagem de oxi­génio tão ele­vada. Qual a sua origem?
A luz ul­tra­vi­o­leta in­tensa do Sol di­vide a água, H2O, em oxi­génio e hi­dro­génio e o hi­dro­génio, o gás mais leve, es­capa-se ra­pi­da­mente para o es­paço. Este é uma fonte de O2, cer­ta­mente, mas não jus­ti­fica uma per­cen­tagem tão ele­vada de oxi­génio.
Outra pos­si­bi­li­dade é a luz vi­sível or­di­nária, que o Sol emite em grande abun­dância, ser uti­li­zada na Terra para di­vidir a água – con­tudo, este pro­cesso só é pos­sível se houver vida.
Te­riam de existir plantas – forma de vida co­lo­ridas com um pig­mento que ab­sorve for­te­mente a luz vi­sível, que sabem como se­parar a mo­lé­cula de água, guar­dando a energia de dois fo­tões de luz, que retém o H e li­bertam o O, e que uti­lizam o hi­dro­génio assim ob­tido para sin­te­tizar mo­lé­culas or­gâ­nicas. As plantas te­riam de co­brir grande parte do pla­neta.
Tudo isto é pedir muito. Se for um bom ci­en­tista cé­tico, tanto O2 não seria uma prova da exis­tência de vida. Mas seria cer­ta­mente uma boa razão para sus­peitar da sua exis­tência.
Com tanto oxi­génio, não fi­caria sur­pre­en­dido por des­co­brir ozono (O3) na at­mos­fera, porque a luz ul­tra­vi­o­leta produz ozono a partir do oxi­génio mo­le­cular (O2). O ozono ab­sorve, por sua vez, a ra­di­ação ul­tra­vi­o­leta pe­ri­gosa. Por­tanto, se o oxi­génio se deve à vida, há uma cu­ri­osas sen­sação de que a vida se pro­tege a si mesma. Mas esta vida po­deria ser cons­ti­tuída por meras plantas fo­tos­sin­té­ticas. Não está im­plí­cito um alto nível de in­te­li­gência.
Quando exa­mi­namos os con­ti­nentes mais de­ta­lha­da­mente, des­co­brimos que existem, fa­lando em termos gros­seiros, dois tipos de re­giões.
Uma re­vela o es­pectro de ro­chas e mi­ne­rais co­muns a vá­rios ou­tros mundos. A outra re­vela algo in­vulgar: um ma­te­rial que cobre vastas áreas e ab­sorve for­te­mente a luz ver­melha. (O Sol, evi­den­te­mente, emite luz de todas as cores, com um pico no ama­relo.)
Este pig­mento pode muito bem ser o agente ne­ces­sário se a luz vi­sível or­di­nária es­tiver a ser uti­li­zada para di­vidir a água, sendo res­pon­sável pelo oxi­génio do ar. É outra pista, desta feita um pouco mais só­lida, da exis­tência de vida – não apenas um bi­cha­roco aqui e outro ali, mas uma su­per­fície pla­ne­tária re­pleta de vida. O pa­vi­mento é, de facto, clo­ro­fila: ab­sorve luz azul, bem como ver­melha, e é res­pon­sável pelo facto de as plantas serem verdes. O que está a ob­servar é um pla­neta com uma densa co­ber­tura flo­restal.
A Terra re­vela assim pos­suir três ca­rac­te­rís­ticas únicas pelo menos neste sis­tema solar – oce­anos, oxi­génio, vida. É di­fícil não supor que estão re­la­ci­o­nadas, sendo os oce­anos os lo­cais de origem, e o oxi­génio o pro­duto, de uma vida abun­dante.
Quando olha aten­ta­mente para o es­pectro in­fra­ver­melho da Terra, des­cobre os cons­ti­tuintes menos abun­dantes do ar. Para além do vapor de água, há dió­xido de car­bono (CO2), me­tano (CH4) e ou­tros gases que ab­sorvem o calor que a Terra tenta ir­ra­diar para o es­paço du­rante a noite. Esses gases aquecem o pla­neta. Sem eles, a Terra atin­giria em todos os pontos tem­pe­ra­turas in­fe­ri­ores ao ponto de con­ge­lação da água. Acaba de des­co­brir o efeito de es­tufa deste mundo.
A exis­tência si­mul­tânea de oxi­génio e me­tano na mesma at­mos­fera é pe­cu­liar. As leis da quí­mica são muito claras: na pre­sença de um ex­cesso de O2, o CH4 de­veria ser in­tei­ra­mente con­ver­tido em H2O e CO2. Este pro­cesso é tão efi­ci­ente, que não de­veria existir uma única mo­lé­cula de me­tano em toda a at­mos­fera ter­restre.
Con­tudo, des­cobre que uma em cada mi­lhão de mo­lé­culas é me­tano, o que cons­titui uma imensa dis­cre­pância. O que po­derá sig­ni­ficar?
A única ex­pli­cação pos­sível é o me­tano estar a ser in­je­tado na at­mos­fera ter­restre tão ra­pi­da­mente que a sua re­ação quí­mica com o O2 não con­segue acom­pa­nhar o ritmo.
Qual a origem de todo este me­tano? Talvez se es­cape do in­te­rior da Terra – mas, quan­ti­ta­ti­va­mente, esta con­je­tura pa­rece não re­sultar , e Marte e Vénus não pos­suem uma con­cen­tração de me­tano se­me­lhante a esta.
As únicas al­ter­na­tivas são bi­o­ló­gicas, uma con­clusão que não faz su­po­si­ções sobre a quí­mica da vida, nem a sua apa­rência, mas de­riva me­ra­mente da ins­ta­bi­li­dade do me­tano numa at­mos­fera rica em oxi­génio.


De facto, o me­tano tem como origem as bac­té­rias dos pân­tanos, do cul­tivo de arroz, da queima de ve­ge­tação, do gás na­tural dos poços de pe­tróleo e da fla­tu­lência bo­vina. Numa at­mos­fera rica em oxi­génio, a exis­tência de me­tano é um sinal de vida.
É um tanto des­con­cer­tante que as ati­vi­dades in­tes­ti­nais ín­timas das vacas sejam de­te­tá­veis a partir do es­paço in­ter­pla­ne­tário, es­pe­ci­al­mente quando tanto do que nos é caro não o é. To­davia, um ci­en­tista ex­tra­ter­restre pas­sando pela Terra não po­deria, até esta al­tura, de­duzir a exis­tência de pân­tanos, arroz, fogo, pe­tróleo ou vacas. Apenas vida.
Todos os si­nais de vida que dis­cu­timos até agora são de­vidos a formas de vida com­pa­ra­ti­va­mente sim­ples (o me­tano no rúmen das vacas é ge­rado por bac­té­rias que vivem nele).
Se a sua nave es­pa­cial ti­vesse pas­sado pró­ximo da Terra há uma cen­tena de mi­lhões de anos, na era dos di­nos­sauros, quando não exis­tiam hu­manos nem tec­no­logia, ainda assim se ob­ser­varia o oxi­génio e o ozono, o pig­mento clo­ro­fila e de­ma­siado me­tano.
Atu­al­mente, con­tudo, os nossos ins­tru­mentos estão a captar não pre­ci­sa­mente si­nais de vida, mas de alta tec­no­logia – algo que não po­deria ter sido de­te­tado há cem anos.
Está a de­tetar uma onda de rádio par­ti­cular pro­ve­ni­ente da Terra. As ondas de rádio não sig­ni­ficam ne­ces­sa­ri­a­mente vida e in­te­li­gência. Podem ser ge­radas por muitos fe­nó­menos na­tuais.
Já se en­con­traram emis­sões de rádio pro­ve­ni­entes de ou­tros mundos apa­ren­te­mente de­sa­bi­tados – ge­rada por ele­trões presos pelos mesmos campos mag­né­ticos dos pla­netas, por mo­vi­mentos caó­ticos nas frentes de choque que se­param esses campos mag­né­ticos do campo mag­né­tico in­ter­pla­ne­tário e por re­lâm­pagos.
(Os «as­so­bios» ra­di­o­fó­nicos per­correm nor­mal­mente notas que vão das altas até às baixas, num ciclo re­pe­tido).
Al­gumas dessas emis­sões de rádio são con­tí­nuas; al­gumas surgem em ra­jadas re­pe­ti­tivas; al­gumas duram poucos mi­nutos e de­pois de­sa­pa­recem.
Mas esta é di­fe­rente. Uma parte da trans­missão rádio da Terra re­gista-se apenas nas frequên­cias onde as ondas de rádio co­meçam a es­capar-se da io­nos­fera do pla­neta, a re­gião ele­tri­ca­mente car­re­gada acima da es­tra­tos­fera que re­felte e ab­sorve as ondas de rádio.
Cada trans­missão contém uma frequência cen­tral cons­tante sobre a qual é mo­du­lado um sinal (uma sequência com­plexa de co­mu­ta­ções). Ne­nhum ele­trão num campo mag­né­tico, ne­nhuma frente de choque, ne­nhuma carga at­mos­fé­rica podem geral algo se­me­lhante.
A única ex­pli­cação pos­sível pa­rece ser a vida in­te­li­gente.
A con­clusão de que a trans­missão rádio se deve a tec­no­logia ter­restre jus­ti­fica-se in­de­pen­den­te­mente do sig­ni­fi­cado das co­mu­ni­ca­ções. Não é ne­ces­sário des­co­di­ficar a men­sagem para ter a cer­teza de que é uma men­sagem. (Este sinal é na re­a­li­dade, su­po­nhamos, a co­mu­ni­cação entre a Ma­rinha dos Es­tados Unidos e a sua frota de sub­ma­rinos equi­pados com armas nu­cle­ares).
Por­tanto, se fosse um ex­plo­rador ex­tra­ter­restre, sa­beria que pelo menos uma es­pécie da Terra tinha do­mi­nado a tec­no­logia rádio. Qual delas? As cri­a­turas que pro­duzem me­tano? As que geram oxi­génio? Aquelas cujo pig­mento cobre a pai­sagem de verde? Ou outra, mais subtil, in­de­te­tável por uma nave es­pa­cial de pas­sagem? Para des­co­brir essa es­pécie tec­no­ló­gica, talvez seja de­se­jável exa­minar a Terra com uma re­so­lução su­pe­rior – pro­cu­rando, se não os pró­prios seres, pelo menos os seus ar­te­factos.
Co­meça com um te­les­cópio mo­desto, de tal forma que o maior de­talhe que é pos­sível de­finir é da ordem de 1 ou 2 qui­ló­me­tros. Não é pos­sível dis­tin­guir ne­nhuma ar­qui­te­tura mo­nu­mental, ne­nhuma for­mação es­tranha, ne­nhuma mo­di­fi­cação ar­ti­fi­cial da pai­sagem, ne­nhum sinal de vida.
Ob­serva uma densa at­mos­fera em mo­vi­mento. A água abun­dante deve eva­porar-se e de­pois pre­ci­pitar-se sob a forma de chuva. An­tigas cra­teras de im­pacto, evi­dentes na lua pró­xima da Terra, são quase ine­xis­tentes. Deve, pois, existir um con­junto de pro­cessos através dos quais se cria terra nova, que sofre de­pois uma erosão em muito menos tempo que a idade deste mundo. Isso im­plica água cor­rente.
En­quanto exa­mina com uma re­so­lução cada vez maior, des­cobre serras, vales e muitas ou­tras in­di­ca­ções de que o pla­neta é ge­o­lo­gi­ca­mente ativo. Existem também al­guns lo­cais es­tra­nhos ro­de­ados de ve­ge­tação, mas que são eles pró­prios des­pro­vidos de plantas. As­se­me­lham-se a man­chas des­co­lo­ridas na pai­sagem.



Quando exa­mina a Terra com uma re­so­lução de cerca de 100 me­tros, tudo se al­tera. O pla­neta re­vela-se co­berto de li­nhas retas, qua­drados, re­tân­gulos e cír­culos – por vezes, cin­gindo-se ao redor das mar­gens dos rios ou ani­nhando-se nas en­costas mais baixas das mon­ta­nhas, ou­tras vezes es­ten­dendo-se pelas pla­ní­cies, mas ra­ra­mente nos de­sertos ou nas altas mon­ta­nhas, e ab­so­lu­ta­mente nunca nos oce­anos.
A sua re­gu­la­ri­dade, com­ple­xi­dade e dis­tri­buição seria di­fícil de ex­plicar não re­cor­rendo à vida e à in­te­li­gência, apesar da com­pre­ensão da função e do pro­pó­sito poder ser en­ga­na­dora. Talvez só con­se­guisse con­cluir que as formas de vida do­mi­nantes pos­suem si­mul­ta­ne­a­mente uma paixão pela ter­ri­to­ri­a­li­dade e pela ge­o­me­tria eu­cli­diana. Com esta re­so­lução não as po­deria ver e muito menos co­nhecer.
Muitas das man­chas des­pro­vidas de ve­ge­tação re­velam pos­suir uma ge­o­me­tria axa­dre­zada sub­ja­cente. São as ci­dades do pla­neta.
Sobre grande parte da pai­sagem, e não apenas nas ci­dades, nota uma pro­fusão de li­nhas retas, qua­drados, re­tân­gulos e cír­culos. As man­chas es­curas, cor­res­pon­dentes às ci­dades, re­velam uma ge­o­me­tri­zação acen­tuada, pos­suindo apenas al­guns pe­daços de ve­ge­tação in­tactos e também eles com de­li­mi­ta­ções mar­ca­da­mente re­gu­lares. Nota oca­si­o­nal­mente al­guns tri­ân­gulos e, numa ci­dade, um pen­tá­gono.
Quando tira fo­to­gra­fias com uma re­so­lução de 1 metro ou menos, des­cobre-se que as li­nhas retas entre-cru­zadas dentro das ci­dades e as longas li­nhas retas que as ligam a ou­tras ci­dades contém imensos seres ae­ro­di­nâ­micos e mul­ti­co­lores com al­guns me­tros de com­pri­mento, de­li­ca­da­mente uns atrás dos ou­tros, numa pro­cissão or­de­na­da­mente lenta e longa.
Eles são muito pa­ci­entes. Uma fiada de seres imo­bi­liza-se para deixar a outra con­ti­nuar em ân­gulo reto. Este favor é re­tri­buído re­gu­lar­mente. À noite, ligam duas luzes in­tensas à frente para verem o ca­minho. Al­guns, um nú­mero re­du­zido de pri­vi­le­gi­ados, quando o dia de tra­balho ter­mina, re­co­lhem a pe­quenas casas para des­cansar du­rante a noite. A mai­oria não tem casa e dorme nas ruas.
Até que enfim! De­tetou a fonte de toda a tec­no­logia, as formas de vida do­mi­nantes do pla­neta. As ruas das ci­dades e as es­tradas no campo são evi­den­te­mente cons­truídas para seu be­ne­fício. Po­deria julgar que es­tava re­al­mente a co­meçar a per­ceber a vida na Terra. E talvez ti­vesse razão.
Se au­men­tasse um pouco mais a re­so­lução, des­co­briria pe­quenos pa­ra­sitas que en­tram e saem oca­si­o­nal­mente dos or­ga­nismos do­mi­nantes. Eles de­sem­pe­nham um qual­quer papel mais im­por­tante, to­davia, porque, fre­quen­te­mente, um or­ga­nismo do­mi­nante es­ta­ci­o­nado re­co­meça a fun­ci­onar ime­di­a­ta­mente de­pois de ter sido rein­fe­tado por um pa­ra­sita, e para ime­di­a­ta­mente antes de o pa­ra­sita ser ex­pe­lido. Isto é enig­má­tico. Mas nin­guém disse que a vida na Terra seria fácil de com­pre­ender.
Todas as fo­to­gra­fias que tirou até agora apa­nharam a luz do Sol re­fle­tida; isto é, foram ti­radas na parte do pla­neta em que é dia. Per­cebe uma coisa mui­tís­simo in­te­res­sante quando fo­to­grafa a Terra du­rante a noite: o pla­neta é ilu­mi­nado.
A re­gião mais bri­lhante, perto do cír­culo ár­tico, é ilu­mi­nada pela au­rora bo­real – ori­gi­nada não pela vida, mas por ele­trões e pro­tões pro­ve­ni­entes do Sol, des­vi­ados pelo campo mag­né­tico ter­restre.
Tudo o resto que vê se deve à vida. As luzes de­li­mitam re­co­nhe­ci­da­mente os mesmos con­ti­nentes que en­treviu du­rante o dia; e muitas cor­res­pondem a ci­dades que já ma­peou. As ci­dades con­cen­tram-se pró­ximo das costas. Tendem a ser mais es­parsas no in­te­rior dos con­ti­nentes. Talvez os or­ga­nismos do­mi­nantes pre­cisem de­ses­pe­ra­da­mente de água sal­gada (ou talvez, em tempos, os na­vios oceâ­nicos te­nham sido es­sen­ciais para o co­mércio e a emi­gração).
Al­gumas das luzes, porém, não se devem às ci­dades. No Norte de África, no Médio Ori­ente e na Si­béria, por exemplo, existem luzes muito bri­lhantes numa pai­sagem com­pa­ra­ti­va­mente es­téril – de­vidas, na prá­tica, às queimas em poços de pe­tróleo e gás na­tural.
No mar do Japão, no pri­meiro dia em que ob­serva, re­para numa es­tranha área ilu­mi­nada com forma tri­an­gular. Não é uma ci­dade. O que po­derá ser?
De facto, é a frota ja­po­nesa de pesca da lula, que uti­liza ilu­mi­na­ções bri­lhantes para atrair car­dumes de lulas à sua morte. Nou­tros dias, este pa­drão de luzes va­gueia por todo o Oceano Pa­cí­fico em busca de presas. Com efeito, o que acaba de des­co­brir é o sushi.
Pa­rece-me grave o facto de po­derem de­tetar tão ra­pi­da­mente do es­paço al­gumas das pe­cu­li­a­ri­dades da vida na Terra – os há­bitos gas­troin­tes­ti­nais dos ru­mi­nantes, a co­zinha ja­po­nesa, os meios de co­mu­ni­cação com os sub­ma­rinos er­rantes que ame­açam de morte 200 ci­dades – en­quanto grande parte da nossa ar­qui­te­tura mo­nu­mental, dos nossos em­pre­en­di­mentos de en­ge­nharia, dos nossos es­forços para cui­darmos uns dos ou­tros, são quase com­ple­ta­mente in­vi­sí­veis. É uma es­pécie de pa­rá­bola.
Até ao mo­mento, a ex­pe­dição à Terra tem de ser con­si­de­rada um enorme su­cesso. Ca­rac­te­rizou o meio am­bi­ente; de­tetou vida; des­co­briu ma­ni­fes­ta­ções de seres in­te­li­gentes; talvez até tenha iden­ti­fi­cado a es­pécie do­mi­nante, apai­xo­nada pela ge­o­me­tria e re­ti­li­ne­a­ri­dade.
Este pla­neta me­rece cer­ta­mente um es­tudo mais pro­lon­gado e de­ta­lhado. Por essa razão, co­locou a sua nave em ór­bita à volta da Terra.
Olhando para baixo para o pla­neta, des­cobre novos enigmas. Em toda a Terra, as cha­minés lançam dió­xido de car­bono e quí­micos tó­xicos para o ar. Os seres do­mi­nantes que se des­locam nas es­tradas também o fazem. Mas o dió­xido de car­bono é um gás que con­tribui para o efeito de es­tufa. Pode ve­ri­ficar que a sua quan­ti­dade na at­mos­fera au­menta pro­gres­si­va­mente ano após ano.
O mesmo se ve­ri­fica no caso do me­tano e de ou­tros gases que au­mentam o efeito de es­tufa. Se esta si­tu­ação se man­tiver, a tem­pe­ra­tura do pla­neta irá subir. Es­pec­tros­co­pi­ca­mente, des­cobre outra classe de mo­lé­culas que estão a ser in­je­tadas no ar, os clo­ro­fluor-car­bo­netos, que não só au­mentam o efeito de es­tufa, como são de­vas­ta­do­ra­mente efi­ci­entes na des­truição da ca­mada de ozono pro­te­tora.
Olha mais cui­da­do­sa­mente para o centro do con­ti­nente sul-ame­ri­cano, que – como já se sabe agora – é uma vasta flo­resta tro­pical. Todas as noites ob­serva mi­lhares de in­cên­dios. Du­rante o dia, a re­gião está co­berta de fumo. Com o passar dos anos, por todo o pla­neta, existem cada vez menos flo­restas e mais zonas se­mi­de­sér­ticas.
Olha para baixo, para a grande ilha de Ma­da­gáscar. Os rios são de cor cas­tanha, ori­gi­nando uma vasta mancha no oceano en­vol­vente. É a ca­mada su­pe­rior do solo a ser ar­ras­tada para o mar a uma taxa tão ele­vada, que de­sa­pa­re­cerá daqui a al­gumas dé­cadas. Nota que o mesmo acon­tece na foz dos rios ao longo de todo o pla­neta.
Mas, se a ca­mada su­pe­rior do solo de­sa­pa­rece, a agri­cul­tura torna-se im­pos­sível. Daqui a um sé­culo, como se ali­men­tarão? O que res­pi­rarão? Como re­a­girão a um meio am­bi­ente em mu­dança e mais pe­ri­goso?
Da sua po­sição or­bital, pode ver que, in­du­bi­ta­vel­mente, al­guma coisa correu mal. Os or­ga­nismos do­mi­nantes, quais­quer que sejam – e que se deram ao imenso tra­balho de mo­di­ficar a sua su­per­fície – estão a des­truir si­mul­ta­ne­a­mente a sua ca­mada de ozono e as suas flo­restas, a deixar erodir o seu solo fértil e a re­a­lizar ex­pe­ri­ên­cias enormes e des­con­tro­ladas com o clima do seu pla­neta. Não terão dado pelo que se passa? Ig­no­rarão o que os aguarda? Serão in­ca­pazes de tra­ba­lhar em con­junto em nome do meio am­bi­ente que os sus­tenta a todos?
Talvez, pense o leitor, es­teja na al­tura de re­a­va­liar a su­po­sição de que existe vida in­te­li­gente na Terra

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